Quando o ódio vem de cima, desce até às ruas de Torres Novas - o BE foi à Assembleia Temática e não ficou pela estatística
Obrigado Sr.Presidente
Na segunda parte desta Assembleia Temática vamos abordar o crime que está na origem de mais participações às forças de segurança e que mais mata no nosso país, a violência doméstica e de género e como esta se relaciona com o discurso de ódio, mas não podemos também deixar de abordar esta questão no debate que realizamos hoje.
O discurso de ódio está diretamente ligado à insegurança.
Não apenas à insegurança física, aquela que medimos em estatísticas ou ocorrências, mas também à insegurança sentida pelas pessoas ou percepcionada, como agora se diz.
O discurso de ódio é construído, alimentado e depois legitimado por comportamentos que, infelizmente já chegaram aos órgãos de soberania.
É alimentado quando se diz a uma deputada para voltar “à sua terra”. É alimentado quando, da mesa da Assembleia da República, uma deputada é alvo de gestos assediadores. É alimentado sempre que os migrantes são apresentados como ameaça, que minorias são transformadas em bodes expiatórios para problemas que a sociedade não soube ou não quis resolver.
E este discurso normalizou-se porque veio de cima. Veio de quem tinha palco, responsabilidade e o dever de exemplo. Quando o ódio vem de cima, ele desce. Desce pelas instituições, pelas redes sociais, pelas conversas de café, até chegar ao quotidiano das pessoas. Chega às ruas, às escolas.
Por isso, não basta reagir quando algo corre mal. É preciso criar condições para que as pessoas se sintam verdadeiramente seguras, todas as pessoas, para que o espaço público seja efetivamente de todas e de todos, e não um território que se vai tornando hostil para quem já vive em situação de exclusão ou vulnerabilidade.
A segurança começa também no espaço urbano. Uma rua mal iluminada não é apenas um problema técnico. É um espaço que afasta pessoas, e que cria isolamento A resposta passa igualmente pela reabilitação urbana.
Reabilitar é devolver habitação, presença e comunidade. Porque a segurança constrói-se com vizinhos, com ruas habitadas.
Defendemos o policiamento de proximidade. Há centenas de exemplos e múltiplas experiências que comprovam que este é o policiamento mais eficaz na prevenção da criminalidade, que conhece o território, que conhece as pessoas.
Aliás Conhecemos os exemplos positivos, a escola segura, o apoio aos idosos isolados, e não um policiamento baseado na repressão ou na suspeita em função da origem étnica.
A insegurança já não circula apenas nas ruas, circula nos grupos de WhatsApp, nas publicações do Facebook, nos rumores que se espalham em minutos sem qualquer verificação. E já vimos isso acontecer em Torres Novas, boatos difundidos em grupos locais, a inventar factos e a alimentar medo e desconfiança, enquanto as autoridades permaneceram em silêncio até serem questionadas pela comunicação social.
Isso não pode continuar. As forças de segurança têm de assumir uma postura proactiva na comunicação pública. Têm de monitorizar rumores, desmentir rapidamente informações falsas e comunicar de forma atempada. Já sabemos que um boato sem resposta durante horas já produziu efeitos na vida das pessoas.
E ainda uma nota breve porque a segurança também passa pelas estradas.
A condução sob influência do álcool, o excesso de velocidade, o desrespeito pelos peões nas passadeiras, tudo isto são formas de violência quotidiana, muitas vezes banalizadas, mas sempre evitáveis, e que continuam a ceifar vidas.
Não podemos falar de não violência ignorando aquilo que acontece diariamente nas nossas estradas. Também aqui é necessária uma posição clara por parte da autarquia, já existem queixas como o caso da rua Luís de Camões, onde de madrugada circulam motociclos e veículos ligeiros em alta velocidade. Precisamos de trabalhar para que Torres Novas se mantenha uma terra segura onde as pessoas se sintam seguras não porque existem câmaras de video-vigilância mas porque existem mais ruas iluminadas, mais casas habitadas, mais espaços públicos vivos, mais confiança entre pessoas e menos ódio normalizado.
Obrigado